quinta-feira, 16 de julho de 2015

Aumento de chuvas no hemisfério Norte só é explicado pelas alterações climáticas

“Factor humano” é o título da capa da Nature, e põe o dedo na ferida com uma fotografia de casas inundadas pelas chuvas. Dois estudos publicados na edição desta quinta-feira da revista relacionam pela primeira vez o aumento de precipitação que está a acontecer na Terra com as alterações climáticas derivadas da actividade humana.

Um estudo de uma equipa do Canadá analisou a precipitação de chuva e queda de neve diárias em 6000 estações meteorológicas entre 1951 e 1999 no hemisfério Norte. “O nosso estudo mostra que os fenómenos de [precipitação mais forte] aumentaram em magnitude, o que quer dizer que fenómenos raros estão a tornar-se menos raros”, explicou Francis Zwiers, um dos autores do primeiro artigo, o investigador pertence à Divisão de Investigação Climatérica do instituto Environment Canada, no Ontário.

“Existem padrões característicos de aumento ou diminuição [destes fenómenos], como por exemplo o fenómeno do El niño”, disse citado pela revista norte-americana Scientific American, que faz parte do grupo da Nature. Mas não foram estes tipos de padrões que a equipa encontrou. Segundo os autores a variabilidade intrínseca do clima não explica estas variações.

“Os indícios levam-nos em outra direcção, a um fenómeno que esta a influenciar as precipitações a uma escala global – e a única coisa que nos lembramos é a mudança da composição da atmosfera”, explicou o cientista à BBC News.

Um dos impactos directos do aumento de temperatura do mundo, causados pelos gases de efeito de estufa, é a capacidade de a atmosfera reter mais água. Esta investigação é primeira “identificação formal” da ligação entre os fenómenos das alterações climáticas e a precipitação. O estudo mostra também que os modelos que existem estão a subestimar os verdadeiros efeitos do aumento de temperatura.

As simulações não podem concluir se um fenómeno particular foi causado devido às alterações climáticas. O que os cientistas fazem através de observações meteorológicas, modelos climáticos e com a ajuda da teoria das probabilidades, é determinar como é que as alterações climáticas influenciam as probabilidades de fenómenos extremos acontecerem.

Foi o que a equipa de cientistas da Universidade de Oxford, responsável pelo segundo artigo, fez. Olharam para as inundações que ocorreram em 2000, na Inglaterra e no país de Gales, com os modelos climáticos, e quantificaram o papel das alterações climáticas no risco das cheias.

Entre Setembro e Novembro de 2000, choveu mais de 500 milímetros de chuva no Reino Unido. Segundo os dados do jornal britânico Guardian, este foi o Outono mais húmido desde que há registo, ou seja, desde o ano de 1766. Mais de 10.000 casas ficaram inundadas e os seguros tiveram que pagar 4,16 mil milhões de euros pela destruição.

A equipa utilizou os computadores pessoais de 300000 mil voluntários para, através do programa Climateprediction.net, correrem modelos de climáticos. Os modelos comparam as probabilidades deste fenómeno acontecer no caso de termos um clima com alterações climáticas e no caso de não termos.

Os resultados mostram que o aquecimento global tem uma alta probabilidade de ter duplicado as hipóteses de se registar um fenómeno idêntico ao de 2000. Mas, uma em cada dez vezes, o aquecimento global pode ter aumentado este risco em 700 por cento ou tê-lo baixado para 20 por cento.

Ambas as equipas defendem a necessidade de mais investigação para aprimorar os resultados. Um factor importante é haver medições dos factores meteorológicos em locais do mundo que hoje são mal seguidos. Segundo a equipa de Oxford, é necessário distinguir quais os fenómenos que vão tornar-se mais frequentes e quais os que vão ser menos frequentes.

“Estes dois estudos mostram que o impacto humano na intensificação das chuvas e inundações já é detectável agora”, disse citado pela Reuters Richard Allan, do departamento de meteorologia, da Universidade de Reading, na Inglaterra.

O ambientalista dinamarquês Bjorn Bloomberg, um dos cépticos das alterações climáticas disse à BBC News que os modelos informáticos são a única forma que os cientistas têm para fazer previsões do clima no futuro. No entanto, a forma como devemos reagir e evitar as catástrofes não é gastando enormes quantidades de dinheiro para reverter o efeito das alterações climáticas.

“Temos que nos focar em formas mais simples – fazer protecções melhores, assegurar que as pessoas não habitem em planícies de cheias, e garantir espaços para que as cheias dos rios se dêem naturalmente, como acontecia no passado”, explicou.

Mas a secretária-executiva da convenção do clima das Nações Unidas, Christina Figueres, defende a redução das emissões de gás com efeito de estufa. “É alarmante admitir que a comunidade das nações é incapaz de estabelizar completamente as alterações climáticas, isto vai ameaçar os locais onde vivemos, onde e como podemos fazer crescer alimentos e onde podemos encontrar água”, disse recentemente ao parlamento espanhol, citada pela BBC News.
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